A Embaixada da República Popular da China em Brasília é uma das mais afastadas da Esplanada dos Ministérios, situada em uma mansão isolada no final da Asa Sul, próxima a um centro espírita. Para chegar ao Palácio do Planalto a partir de lá, é necessário percorrer oito quilômetros, uma distância quatro vezes maior que a da Embaixada dos Estados Unidos, que fica próxima ao centro político do país e a outras representações ocidentais.
Essa distância geográfica simbolizava a era da inauguração de Brasília, quando os americanos eram a maior potência mundial, enfrentando a União Soviética em uma guerra espacial. Na época, a China estava muito atrás dos Estados Unidos em qualquer indicador. Hoje, a disputa é entre os EUA e a China, e Brasília é um dos principais palcos desse embate.
O governo federal está definindo as regras para a implementação da tecnologia 5G no Brasil. Os chineses largaram na frente, oferecendo, segundo o mercado, uma tecnologia melhor e mais barata. Em resposta, os americanos lideram uma campanha negativa contra a China, acusando-os de espionagem e estratégias comerciais desonestas.
No início de seu governo, o presidente Jair Bolsonaro buscou reaproximação com os Estados Unidos de Donald Trump, influenciado pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o assessor especial Filipe Martins, e o deputado federal Eduardo Bolsonaro, todos admiradores de Olavo de Carvalho e integrantes da ala ideológica do governo.

Entretanto, os chineses foram gradualmente superando obstáculos e ocupando espaços na nova configuração da Esplanada. O primeiro movimento foi a nomeação de Yang Wanming como embaixador em Brasília. Com formação em finanças e experiência na América Latina, ele promoveu a ideia de que a relação comercial do Brasil com a China deve também ser política.
O segundo movimento envolveu levar parlamentares do PSL, então partido de Bolsonaro, para a China, seguido por uma viagem de senadores para discutir o 5G, incluindo o senador Flávio Bolsonaro.
O agronegócio, principal setor econômico do Brasil, também buscou estreitar relações com a China, destino de 32% das commodities agrícolas brasileiras. O Ministério da Agricultura criou o “Núcleo China” para tratar exclusivamente das relações com o país asiático. O Itamaraty também criou um departamento específico para lidar com a China.
Como resultado, Bolsonaro se encontrou mais vezes com o presidente chinês Xi Jinping (quatro vezes) do que com Donald Trump (três vezes), e o Brasil fechou mais acordos com a China (17) do que com os EUA (6) desde a posse de Bolsonaro.
A questão do 5G intensificou a disputa. Sob a justificativa de segurança nacional, os militares assumiram o debate, e um decreto presidencial ampliou as competências do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) em relação à segurança da informação. O GSI está compilando informações dos ministérios sobre o impacto do 5G, e o resultado será um documento para subsidiar a decisão presidencial.

Bolsonaro terá que escolher entre ceder à pressão americana e restringir a China, ou optar por critérios comerciais e econômicos, permitindo a participação chinesa, o que é a principal aposta em Brasília.
Os militares argumentam que excluir a China pode ferir a Constituição, que assegura a livre concorrência, e mencionam casos recentes de espionagem americana. Eles também apontam que 40% da infraestrutura 4G existente no Brasil é chinesa, o que tornaria a substituição extremamente cara.
Os chineses esperam uma decisão técnica e econômica, e não política. O Itamaraty evita o debate público, mas atua nos bastidores, com preocupações sobre as prioridades orçamentárias das Forças Armadas para cibersegurança.
Soluções intermediárias, como impedir que uma empresa controle toda a rede ou aplicar multas e auditorias permanentes, estão sendo discutidas. Qualquer que seja a decisão, ela impactará a política externa brasileira e acentuará as divergências entre as alas militar e ideológica do governo Bolsonaro.